Quem desdenha quer comprar
11 de julho de 2011
Ouvi um comentário curioso esse fim de semana. Um amigo me disse, com sinceridade:
- Fico tão nervoso com a presença das pessoas no meu aniversário que prefiro não comemorar, pra não correr o risco de ninguem aparecer.
E me ocorreu: será que ele é tão diferente assim da pessoa que marca “uma coisinha boba”, que faz questão de minimizar a mandatoriedade da presença das pessoas, “não precisa ninguém se preocupar”, ela diz. “não tem problema se não der pra você ir”, acrescenta. O evento (um aniversário, uma defesa de tese, um chá de panela) é importante, mas não tem problema nenhum se vc não aparecer…. “relaxa, vem se quiser, se der, se puder. Eu não me importo”
Será que no fundo não são os dois lados da mesmíssima moeda? Será que no fundo os dois não querem tão intensamente algo, e acham tão dolorosa a idéia de não obtê-la (e, claro, o julgamento alheio em torno disso) que preferem desdenhar.
aaaah, mas quem desdenha quer comprar. Se quer! Quanta mocinha e mocinho desdenhando do amor, desdenhando dos relacionamentos, desdenhando dos corpos magros, desdenhando do dinheiro…..
O mais estranho, confesso..é que quem tá nessa já comprou esse discurso…não sabe mais os seus desejos verdadeiros. Se não consigo ganhar dinheiro, vou dizer que o dinheiro não é importante, que a sociedade burguesa comprou a idéia americanóide do consumo. Se não consigo ter filhos, vou dizer que os pestinhas são um trabalho insuportável e cuidar de filho é coisa de moça da década de 70. Se não consigo emagrecer, vou dizer que são todas anoréxicas infelizes, aposto que de chocolate a coitada só sente o cheiro tem 10 anos. Se não consigo ser livre, vou dizer que são inconsequentes. Se não consigo encontrar um amor, vou dizer que o amor é uma grande falácia.
São mecanismos de defesa pra lidar as nossas pequenas/grandes decepções. Mas tão importante quanto saber o que é o teu desejo real e não incutido (ler próximo post, sobre sistema de preços) e saber deixar seus desejos virem a tona, é ter coragem de adimitir que muito do que desejamos intensamente…não será nosso. Você talvez tenha que adimitir que era louca pelo fulano(a) que te deu um baita pé na bunda. Ou que quer casar e o outro não quer. Ou que a mulher daquela entrevista de emprego foda não ligou, e você vai ter que aceitar a opção B. Ou ainda, que realmente gostaria que seu cabelo fosse mais liso, sua bunda mais dura, e seu peito um pouco maior.
E a vida é assim. Já dizia Hobbes. Somos eternamente movidos por desejos que se substituem e se somam uns aos outros, sem nunca nos deixar em paz. E a conquista de alguns pode ser o que entendemos por “felicidade”. E a não-conquista de outros tantos é o que nos faz questionar o desejo em si.
“O sucesso contínuo na obtenção daquelas coisas que de tempos a tempos os homens desejam, quer dizer, o prosperar constante, é aquilo a que os homens chamam felicidade; refiro-me à felicidade nesta vida. Pois não existe uma perpétua tranqüilidade de espírito, enquanto aqui vivemos, porquê a própria vida não passa de movimento, e jamais pode deixar de haver desejo (grifo nosso), ou medo, tal como não pode deixar de haver sensação.” Leviatã, Hobbes.
O que pode ser mais humano que adimitir esse aspecto? A simples impossibilidade de se ter tudo. E desejando, ainda assim. Eu perfiro esse caminho, acho digno. Faça como preferir, mas….não pague de “nem aí”… que a gente não cai não!







